DEGUCHI NAO

A Fundadora foi a primeira filha do casal Gorosaburo Kirimura (o pai, carpinteiro) e Soyo (a mãe), nascida em Fukuchiyama (a atual cidade de Hukuchiyama) na província de Quioto, Japão, em 16 de dezembro (do calendário lunar), no ano 7 da Era Tempo, 1837 (no novo calendário: 22 de janeiro).

Este ano do nascimento da Fundadora foi o ano em que todo o país nipônico se viu flagelado por uma colheita tremendamente catastrófica, a que se chamou de "a Grande Fome da Era Tempo", quando apareciam cadáveres de famintos, um após outros.

Os Kirimura orgulhavam-se de sua elevada origem, mas, com o tempo, ao nascer a Fundadora, a família já se achava em situação de miséria. O pai Gorosaburo morreu quando a Fundadora contava 9 anos; por isso, aos 10 anos de idade ela teve de servir em uma casa estranha. Seu modo de servir ao patrão e sua fidelidade aos pais comoviam sobremaneira as pessoas, e ela chegou a ser homenageada pelo senhor feudal de então, por sua lealdade filial.

Por essa época, já com cerca de seis ou sete anos, ela fazia previsões sobre assuntos cotidianos e acertava todas, pelo que se conta. Aos 17 anos foi adotada pela família Deguchi e casou-se com Masagoro, carpinteiro de santuários xintoístas, que por sua vez foi adotado logo depois de Nao. Mais tarde ela teve três filhos e cinco filhas. O esposo Masagoro exercia sua profissão com arte, apesar de otimista e vacilante; era excessivamente indiferente à subsistência da família. Por essa razão a Fundadora tinha de se esforçar bastante no governo da casa. Masagoro faleceu quando a Fundadora contava 50 anos de idade. Com numerosos filhos, ela não sabia o que fazer.

Nao provia a família com diversos trabalhos: vendia manju, (uma espécie de bolo japonês) que ela própria fazia, preparava seda (usada no fabrico de tecidos), realizava pequenos negócios e, por fim, começou a coletar papéis velhos. Enquanto trabalhava procurando papéis, da madrugada até alta noite, e comendo quase nada, suas crianças eram vítimas de sucessivos infortúnios: eram deveras grandes os seus sofrimentos e dificuldades. Não obstante, sua aparência era nobre, e ela, diziam, não parecia, absolutamente, uma catadeira de papel; vestia sempre um quimono com as pregas em ordem, embora modesto, e se apresentava bem penteada.

A partir de 1° de janeiro (do calendário lunar) do ano 25 da Era Meiji (1892), contando a Fundadora 55 anos de idade, todas as noites ela sonhava que ia visitar um majestoso templo e ali se encontrava com um deus muito generoso. Na noite de 5 de janeiro do calendário lunar (2 de fevereiro, solar), de repente ela começou a bradar, do fundo do ventre, com a voz tensa de um deus varonil. Habitualmente a postura da Fundadora era suave e tranqüila, mas, nesses momentos, ela emitia uma voz como que fúlgida e vigorosa, que tornava tenso o seu corpo.

Não sentia a testa quente, como a arder; a parte superior do corpo ficava aprumada, o corpo inteiro enchia-se de vigor, e o talhe inclinava-se um pouco para trás, com uma vacilação que só a custo se podia notar. O maxilar ficava contraído, os olhos brilhavam e escapava um vozeirão, pleno de majestade. Era uma voz desconhecida da Fundadora. Ela não conseguia deter-se de maneira nenhuma, mesmo se comprimisse os dentes: subia-lhe naturalmente do fundo do ventre algo em forma de uma bola.

Desde esse dia a possessão divina da Fundadora continuou desordenadamente, tanto à luz do dia como à noite, e ela não pôde comer nem dormir durante 13 dias. Incomodada, ela indagou ao dono daquela voz quem era ele. Este, exalando um perfume agradabilíssimo, respondeu aos brados: "Sou o Deus Ushitora. De agora em diante Eu vos protegerei. Então, ó todos os homens do mundo, mudai o vosso coração rapidamente."

A humilde Fundadora ficou sobremodo aborrecida, desconfiada de que aquela voz pudesse ser de um espírito mau ou que estivesse ludibriando a ela e a outras pessoas. Visitou então um bonzo e um exorcista que moravam nas proximidades, pedindo-lhes que retirassem do seu corpo o inesperado hóspede.

Quando, porém, eles começaram a rezar, seus corpos tornaramse imediatamente rígidos, sob a pressão do intenso estro espiritual do deus abdominal de Nao, não tendo outro recurso senão retirarem-se.

Assim, a Fundadora examinou de todas as maneiras o seu possessor e, por fim, confiou no Deus Ushitora e seguiu Sua vontade. A Fundadora, que sentiu vergonhoso o vozeirão que saía de sua boca, pediu ao Deus que não continuasse a emitir tal voz, e o Deus respondeu; "Então pegai um pincel". Mas ela, analfabeta, explicou-Lhe que não podia escrever letras. "Não, vós não escrevereis. Eu escreverei", disse o Deus. E, ao sentarse a Fundadora diante do papel, tomando do pincel, sua mão moveu-se automaticamente e começou a escrever revelações.

Do dia em que ocorreu a primeira possessão divina, a Fundadora começou a despejar sobre si baldes d'água junto a um poço, no rigor do frio. Com isso ela desejava tornar mais limpos o seu coração e o seu corpo. Além disso, informada pelo Deus sobre a aproximação de grande dificuldade no mundo e do grande empreendimento da humanidade, ela desejou rogar a Deus pela salvação de todos os seres vivos, transformando a grande dificuldade em pequena, e eliminando a pequena. A autopurificação pela água ela praticava diversas vezes no dia, de dia e de noite, desordenadamente. E esse rigoroso ascetismo durou 20 anos sem nem mesmo um dia de descanso, até que Deus proibisse isso a ela já entrada em anos.

O Fudesaki foi escrito com caracteres simples de kana (silabário japonês) juntamente com algumas letras chinesas, mas aqueles apresentavam algum vigor. Quase todas as coisas ali escritas versavam sobre "o mundo" e "os povos do mundo". Ao escrever o Fudesaki, a Fundadora costumava purificar-se com água, sentava-se diante da mesa com o corpo a prumo, não levando para o cômodo nenhum aquecedor, mesmo no inverno, e não usava nenhum ventilador no verão. Também os fiéis realizavam a respectiva purificação, repetindo a transcrição e leitura humilde do Fudesaki.

O Fudesaki assim escrito foi em seguida compilado pelo Mestre Onisaburo Deguchi e publicado sob o título de Revelações Divinas da Oomoto.

Após a fundação da Oomoto, nos intervalos da escrita diária do Fudesaki, a Fundadora cumpria as tarefas sagradas do plano divino: por ordem de Deus ela viveu algum tempo numa ilhota isolada do Mar do Japão com apenas um pouco de comida, orando pelo fim da Guerra Nipo-russa e pela paz mundial, e na companhia de Onisaburo e alguns outros fiéis ela visitou santuários de vários locais do oeste do Japão, desempenhando a sagrada causa de fazer os "deuses caídos em miséria nas priscas eras" saírem para a vanguarda do mundo, etc.

Por outro lado, os visitantes e crentes eram sempre recebidos por ela com cortesia e amável ajuda, sem distinguir, absolutamente, entre ricos e pobres, entre nobres e plebeus, a todos dirigindo a palavra sempre com humildade e voz cristalina.

Na madrugada de 6 de novembro do ano 7 da Era Taishô (1918) a Fundadora levou uma queda num corredor. Ao Mestre Onisaburo, que a acudiu depressa, ela dirigiu duas ou três palavras, com os olhos semicerrados. Em seguida entrou em coma e ficou nesse estado até a noite. Às 22 e meia a Fundadora ascendeu ao céu em meio às preces dos crentes. Contava ela então 81 anos de idade. Que maravilha! Nesse mesmo dia a Primeira Guerra Mundial, que durou 5 anos, depôs as armas e simultaneamente cessou o troar de todos os canhões. Cinco dias depois, dia 11, terminou a Guerra Mundial.

Realmente, a Fundadora passou por toda espécie de sofrimento durante sua existência neste mundo (v. os parágrafos 145, 576). No Fudesaki há a expressão: "Fiz Nao padecer, e seu coração e seu corpo ficaram tão carcomidos como uma vareta de ferro que fosse raspada até reduzir-se a uma agulha." Isto constitui uma prova divina para torná-la uma coluna de Deus, uma coluna do mundo, e, sob outro ponto de vista, constituiu um resgate para a humanidade.

Isto está relacionado com o modo de vida singelo a que ela se obrigou. De fato, a Fundadora não comeu à saciedade nem uma só vez durante toda a sua vida; na primeira metade de sua existência, por pobreza; na outra, por levar em conta a fome que a humanidade haveria de sofrer, eventualmente, no futuro. Ela comia até mesmo folha amarelada de legume e casca de batata doce, que não jogava fora, e, no que diz respeito ao arroz, comia calada diariamente, pondo pequena quantia numa tigela, e despejando sobre ele água fervente limpa. Uma vez ela confessou: "Quando medito sobre o julgamento de Deus acerca do pecado da humanidade, de desgosto não consigo comer nada". Até o último suspiro ela não desejou usar senão um quimono barato de tecido de algodão.

Certa vez, anos mais tarde, a Terceira Guia Naohi Deguchi  neta da Fundadora, compôs os seguintes uta, saudosa da Fundadora:

Nas horas vagas 
costumava contemplar 
a nuvem fugaz 
cortando o firmamento 
em que se absorvia. 

E todos dizem 
que a divina possessão 
se intensifica, 
mas a conduta da avó 
é calma, é doce, é bela. 

Nao Deguchi a Biography of the Foundress of Oomoto. Oomoto Japan. Disponível em:<http://www.oomoto.or.jp/English/enKyos/kaisoden/> Acesso em: 09 dez. 2013.
Nao Deguchi uma Biografia da Fundadora da Oomoto. Oomoto do Brasil. Disponível em:<http://oomoto.tryte.com.br/NaoDeguchi/br/indice.php> Acesso em: 05 dez. 2013.
DEGUCHI, Nao. Revelações Divinas da Oomoto. São Paulo: Oomoto do Brasil, 2000. Disponível em:<http://pt.scribd.com/doc/6718696/Ofudessaki-Oomoto> Acesso em: 09 dez. 2013.
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